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Câmara sustenta cassados por
corrupção
( noticiado no estadão no dia 25/11/2001)
Nove ex-parlamentares envolvidos em escândalos recebem entre R$ 2 mil e
R$ 8 mil de aposentadoria
DEMÉTRIO WEBER e EDSON LUIZ
BRASÍLIA - Acusados de desviar recursos públicos, receber propina ou quebrar
o decoro parlamentar, nove ex-deputados federais cassados ou que renunciaram
ao cargo por suspeita de corrupção ainda se beneficiam de dinheiro público,
já que recebem mensalmente aposentadorias entre R$ 2 mil e R$ 8 mil da Câmara.
O grupo de beneficiados inclui os chamados anões do Orçamento e ex-deputados,
como o empresário Sérgio Naya, responsável pela
construção do Edifício Palace 2, que desabou no Rio, e João
Maia, acusado de receber R$ 200 mil para votar a favor da emenda da reeleição.
O pagamento das aposentadorias é legal, mas é tema controverso. A presidência
da Câmara entende que, legalmente, a cassação ou a renúncia - para evitar a
perda do mandato - não tiram o direito ao benefício. Mas decisão da Justiça
Federal de Brasília, em primeira instância, determinou a suspensão do pagamento
a cinco ex-deputados. Eles recorreram e o caso aguarda julgamento no Tribunal
Regional Federal (TRF) da 1.ª Região.
Procurado pelo Estado, o presidente da Câmara, Aécio Neves (PSDB-MG), não
quis falar sobre o assunto. Em julho, ele assinou o ato de aposentadoria da
ex-deputada Raquel Cândido (PTB-RO), que foi cassada
em 1994 pela CPI do Orçamento, sob a acusação de desviar quase US$ 1 milhão
de verbas públicas então destinadas ao Instituto Eva Cândido, de sua propriedade,
em Rondônia.
A assessoria de Aécio divulgou uma nota argumentando que, segundo a Constituição,
a pena para quebra de decoro parlamentar é a perda do mandato e nada mais. "Não
há, portanto, previsão legal para que a Câmara dos Deputados aplique, nestes
casos, outra sanção", informa o texto, acrescentando que o tema está sub judice
e cabe à presidência da Casa aguardar o resultado da ação judicial antes de
tomar qualquer iniciativa.
Numa demonstração de que o assunto é espinhoso para muitos parlamentares,
os líderes na Casa do PSDB, Jutahy Júnior (BA), e do PMDB, Geddel Vieira Lima
(BA), também não quiseram falar. O líder do governo na Câmara, Arnaldo Madeira
(PSDB-SP), afirma ser "difícil defender" a concessão dos benefícios sob o ponto
de vista ético. Mas, juridicamente falando, segundo ele, falta base legal para
a suspensão. "A cassação de mandato é um ato político", observa Madeira.
"Enquanto a Justiça não condenar, fica difícil tirar a aposentadoria."
"Imoral" - Já o líder do PT na Câmara, Walter Pinheiro (BA), considera
"imoral" o pagamento desses benefícios. "Se o parlamentar foi cassado por prática
de corrupção, tem de perder a aposentadoria", argumenta. Para Pinheiro, é "escandaloso"
que ex-deputados, como o anão do Orçamento João Alves, que atribuiu sua fortuna
à sorte na loteria, tenha renunciado para escapar da cassação e ainda receba
aposentadoria.
A ex-líder da bancada petista na Câmara Sandra Starling pensa da mesma forma.
Foi ela quem tomou a iniciativa, em 1994, de entrar com uma ação na Justiça
contra o benefício concedido aos ex-deputados Cid Carvalho,
Genebaldo Correia, João Alves, Ibsen Pinheiro e Féres Nader. "Apresentei
um projeto nesse sentido, mas a proposta foi rejeitada", conta.
Em 1998, a juíza da 1.ª Vara em Brasília, Solange Salgado, determinou a
suspensão dos benefícios aos cinco ex-deputados. Além disso, determinou que
eles restituíssem aos cofres públicos o dinheiro que receberam. O grupo recorreu
ao TRF, onde o caso ainda não foi julgado.
De todos os nove ex-parlamentares, aparentemente apenas
Raquel Cândido parece não estar em boas condições
financeiras. João Alves, que entre os agraciados
é o que tem a maior aposentadoria, é dono de apartamentos em quadras valorizadas
de Brasília e em Salvador. Alguns dos imóveis estão alugados. Próximo dos 80
anos, ele vive viajando e pouco fala com a imprensa.
Naya ainda comanda sua construtora, enquanto
que de José Geraldo e Cid Carvalho pouco se sabe.
Nader aparentemente mantém o poder sobre uma cadeia
de rádio no interior do Rio.
Por ofício - Já o ex-presidente da Câmara Ibsen
Pinheiro teoricamente não dependeria da aposentadoria, pois é advogado
atuante e procurador aposentado. "Quando deixei de ser deputado, requeri a contribuição
de 11 anos junto ao extinto Instituto de Previdência dos Congressistas (IPC).
Eles não devolveram e a transformaram, por ofício, em pensão", justifica Ibsen.
Seu ex-colega Genebaldo Correia, hoje prefeito
de Santo Antônio da Purificação (BA), tem também outros rendimentos - além do
salário de R$ 4 mil como prefeito. É dono de casa, fazenda e apartamento. "As
propriedades são no singular, não no plural. Possuo apenas um de cada desses
bens", ressalta Genebaldo. Sobre a aposentadoria, diz que precisa do dinheiro.
"Eu sobrevivo disso, meu filho."
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